Por Lidia Weber

Mitos



Filhos adotivos sempre têm problemas.



Pais adotivos preferem não revelar a adoção para o filho.



Filhos adotivos sempre pensam na família de origem e querem conhecê-la.



Escolher a criança a ser adotada facilita o vínculo afetivo.



A motivação para a adoção é sempre a infertilidade.



A motivação para adoção é fundamental para o sucesso da adoção e adoções “por caridade” não dão certo.



Somente pessoas ricas podem adotar.



Pessoas mais esclarecidas são menos exigentes e têm menos preconceito.



Os adotantes preferem bebês recém-nascidos.



Adotar deve ser natural e não é preciso preparação especial.



Atualmente as adoções são através do sistema legal.



Atualmente ninguém mais discrimina os filhos adotivos.



Filhos adotivos com a cor de pele diferente têm mais problemas em relação à discriminação.



Pais com filhos biológicos e adotivos têm sentimento maior pelos biológicos.



É melhor a criança adotada não saber de sua adoção.



É melhor não falar muito do assunto com o filho adotivo para não potencializar a importância da origem.



Adotantes que optaram pelo processo legal têm opinião positiva sobre os Juizados.



Filhos adotivos têm dificuldade em amar seus pais adotivos.


Verdades



O filho adotivo não tem dificuldades na escola, nem com a educação ou relacionamento afetivo.



Os pais adotivos contam sobre a adoção, mas não gostam de falar sobre isso com mais freqüência com seu filho.



O filho adotivo não quer ter muitas informações nem conhecer a família biológica, mas quer conversar com os pais adotivos sobre a adoção.



A escolha da criança não determina maior ou menor qualidade no relacionamento afetivo.



63% dos adotantes adotaram por infertilidade e 37% alegaram motivações altruístas.



A motivação (altruísmo ou infertilidade) não determina melhor relacionamento afetivo.



Existem adotantes em todas as faixas econômicas, mas há predomínio de pessoas com melhor poder aquisitivo e melhor condição sócio-cultural.



Adotantes de menor poder aquisitivo e nível sócio-cultural são os que mais fizeram adoções altruístas e apresentaram exigências menores em relação à criança. A proporção de pessoas das religiões espíritas e protestantes é mais alta entre os adotantes do que na população em geral.



Sim, a maioria dos adotantes (71%) adotam bebês com até 3 meses e apresentam leve preferência por meninas de cor branca e saudáveis.



Os adotantes e filhos adotivos afirmam que é fundamental ter uma preparação para a adoção.



52% das adoções são legais (feita nos Juizados) e 48% informais (registro da criança como filho biológico).



Famílias por adoção sofrem discriminação e os filhos afirmam que ela vem quase sempre da extensão familiar e dos amigos, e não de estranhos.



A cor da pele da criança adotada não traz maior discriminação ou tratamento preconceituoso.



Pais e filhos biológicos afirmam que o tratamento é igual, mas os filhos adotivos dizem que, às vezes, os biológicos têm melhor tratamento.



Um dos maiores problemas encontrados nas famílias foi quando houve ocorrência de revelação tardia (após os 6 anos) e/ou inadequada (feita por terceiros).



Os pais devem sentir-se confortáveis ao falar da adoção com os filhos adotivos, pois estes dizem que o “diálogo” é um fato importante para o sucesso da relação.



Tanto aqueles que fizeram adoções legais quanto informais têm uma imagem negativa dos serviços de adoção dos Juizados.



92,5% dos filhos adotivos afirmaram amar seus pais e os pais adotivos citam “ser afetivo” como o principal atributo em seus filhos adotivos.

Filme "Os Vingadores" levanta polêmica sobre filhos adotivos

IARA BIDERMAN
JULIANA VINES
DE SÃO PAULO

A cena: Thor, o herói loirão, tenta defender o vilão Loki, dizendo que ele é seu irmão. Viúva Negra, ex-vilã, informa-o que Loki matou 80 pessoas em dois dias. "Ele é adotado", responde Thor.
A passagem acima, do filme "Os Vingadores" (maior bilheteria da história no Brasil), já foi vista por mais de 8 milhões de pessoas desde sua estreia aqui, em 27/4. 

É menos de um minuto nas duas horas e meia em que os heróis vindos dos quadrinhos da Marvel exibem seus superpoderes. Poderia passar despercebido no meio das explosões intergalácticas e das roupas colantes de Scarlett Johansson (a Viúva Negra).
Mas o comentário de Thor ganhou destaque quando a americana Jamie Berke lançou uma petição on-line para que a Marvel (empresa do grupo Disney, produtor do filme) apresente desculpas formais por ter insultado os filhos adotivos e seus pais.
O argumento, ecoado por ONGs pró-adoção, é que a cena dissemina preconceito, fazendo uma associação imediata entre ter sido adotado e ser "do mal". E num filme para crianças e adolescentes.
Para piorar, a plateia ri na cena. Quem tem uma história pessoal com adoção, é claro, não acha graça.
"Todo mundo riu, mas para mim o filme acabou ali", diz Maria Bárbara Toledo, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção. Ela foi assistir ao filme com quatro de seus cinco filhos (dois adotados).
Toledo soube da petição nos EUA depois de ter ido ao cinema. "Pedimos para nossa diretoria jurídica fazer uma carta, só falta saber a quem encaminhar."
A associação presidida por Toledo já fez uma representação contra a TV Globo no Ministério Público por causa da personagem Tereza Cristina, vivida por Christiane Torloni na novela "Fina Estampa", que terminou em março.
"Na novela, a vilã matava para não descobrirem que ela tinha sido adotada. Ter sido adotada e filha [biológica] de uma mulher que foi louca justificavam sua maldade. É o preconceito atrelado à ideia de descendência genética."
O resultado da ação foi uma campanha pró-adoção veiculada pela Globo e estrelada por Torloni.
SEM BOICOTE
No caso de "Os Vingadores", alguns relativizam a importância do comentário de Thor. "Vamos boicotar o filme? Não, vamos assistir e preparar a criança", diz Mônica Natale, 46, gerente-executiva do Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo. 
Ela levou seu filho Alberto, 7, para ver o filme. "Ele não riu, nem percebeu que era piada. Era desnecessária e retrata, sim, um preconceito. Mas ele gostou do filme, não ficou chateado por o vilão ser filho adotivo."
O advogado Leonardo Pereira, 34, adotado quando tinha cinco dias, não fecha com o movimento contra "Os Vingadores".
"Não quero ser do contra, mas a polêmica não pode ser maior do que a realidade. Acredito que a maioria dos filhos adotivos não sofre preconceito. As ONGs deveriam investir em campanhas de adoção, não em um trechinho de um filme", diz Pereira.
GENÉTICA
O medo de que uma criança gerada por pais desconhecidos possa herdar genes que levem a distúrbios de comportamento é um dos fantasmas que rondam a adoção.
Sim, há genes que aumentam a predisposição a alcoolismo, depressões, comportamentos violentos etc.
"Mesmo que essas situações tenham um componente genético, o ambiente onde a criança se desenvolve tem muito mais relevância na organização do cérebro", afirma Renato Flores, professor de genética e coordenador do Ambulatório de Neurociência do Comportamento Violento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Além disso, a ideia de que é possível controlar a herança genética é duvidosa. "Veja, eu sou inteligente e a Gisele Bündchen é lindíssima. Mas o que garante que misturar o meu sangue com o dela vai dar alguma coisa que preste?", pergunta Flores.
A brincadeira fica séria quando esbarra em outras noções sobre hereditariedade.
Em uma pesquisa sobre o que a população pensava da adoção, feita pela psicóloga Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná, boa parte dos entrevistados disse acreditar que marginalidade passa pelo sangue.
Há também o temor de que a mãe biológica tenha abusado de álcool e drogas durante a gestação. "O risco de essas substâncias estragarem o cérebro da criança é bem grande, mas, se o dano for identificado precocemente, podem ser feitos os tratamentos adequados", diz Flores.
Para ele, a resposta aos medos de quem vai adotar não está na genética: "A pessoa tem que pensar: quero um filho para eu gostar, se ele tiver alguma limitação, vou gostar dele do mesmo jeito".
Quando a apresentadora Astrid Fontenelle, 51, adotou seu filho Gabriel, em 2008, preencheu uma ficha em que respondia, entre outras coisas, se aceitaria crianças com distúrbios mentais leves.
"Marquei não. Depois, o juiz me disse: 'Você acredita que exista alguém que não tenha nenhum problema mental?'. Aí caiu a ficha."
Para Astrid, há crianças que lidam muito bem com o fato de terem sido adotadas e outras que têm problemas. Por isso, ela não desculpa a piadinha de "Os Vingadores".
"Meu medo é isso reverberar em um menino de 6, 7 anos. No filme, pode parecer uma piada boba, mas o reflexo pode ser bem ruim."
HERÓI E VILÃO
O filme "Os Vingadores" não foi o primeiro nem será o último a tocar em pontos delicados da adoção. Tratar o filho adotivo como um ser "diferente" não é prerrogativa da ficção moderna.
A visão está em mitologias e relatos de vários períodos da história --de Moisés, adotado pela filha do Faraó, a Clark Kent, o Super-Homem.
"O que denigre e o que exalta são dois lados da mesma moeda. Nenhuma criança preenche expectativas tão extremadas", diz a psicóloga e psicanalista Maria Luiza Ghirardi, do grupo de estudos, prevenção e pesquisa em adoção do Instituto Sedes Sapientae, de São Paulo.
A idealização da adoção pode ser tão problemática quanto os medos sobre a origem biológica da criança, segundo a psicanalista Gina Levinzon, autora de "Adoção" (Casa do Psicólogo, 2004) e professora de psicoterapia psicanalítica na USP.
"Tem pais que adotam não porque querem um filho, mas por quererem fazer um bem para a sociedade. Se esse filho começa a ficar mais rebelde, eles não se conformam. Eles têm que lidar com o filho que têm, o real, não com o imaginário", diz Levinzon.
Para a psicanalista, o fato de a pessoa adotar um filho para satisfazer uma necessidade sua não é o problema: "Precisar ser mãe, ter um filho, é um bom motivo, desde que você tenha a clareza de que terá que respeitá-lo da maneira que ele é".
Aos olhos dos outros, pode parecer um ato de benevolência e generosidade.
"Não fiz caridade. Nunca tive vontade de engravidar, de ter barriga, fui adiando a vontade de ser mãe. Quando veio a vontade, [a adoção] foi o melhor método para mim", conta a apresentadora Astrid Fontenelle, que adotou Gabriel na Bahia, em 2008, quando o menino tinha 40 dias de vida.
DIFICULDADES
Como toda criança, aquela que foi adotada vai encontrar dificuldades na vida. "Existe esse mito de que ela dá mais trabalho, tem muitos problemas. Como se a adoção explicasse todas as dificuldades", diz Levinzon.
Segundo a psicóloga, as pesquisas não mostram que filhos adotivos são mais problemáticos que os biológicos.
"Claro, algumas crianças podem ter passado por traumas, principalmente se foram adotadas mais velhas. Mas, se os pais estiverem preparados, bem orientados, tudo isso pode ser superado." 

Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1095678-filme-os-vingadores-levanta-polemica-sobre-filhos-adotivos.shtml