GEAAVIDA apoiando esta causa

CARTA ABERTA
À Rede Globo de Televisão
Ao Escritor Aguinaldo Silva
Ref.: Novela Fina Estampa
Prezados Senhores:
Meu nome é Bárbara Toledo, sou fundadora do Grupo de Apoio à  Adoção QUINTAL DA CASA DE ANA (www.quintaldeana.org.br ), que trabalha em prol da garantia do direito à  convivência familiar  de crianças e adolescentes que vivem em instituições de abrigo, "varridos para debaixo do tapete da sociedade", apoiando as famí­lias adotivas, orientando os pretendentes à  adoção, justamente para que essa decisão em suas vidas seja muito bem sucedida.

Presido a ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS GRUPOS DE APOIO À ADOÇÃO (ANGAAD) – www.angaad.org.br ,entidade sem fins lucrativos,  que congrega há 18 anos, mais de  100 grupos de apoio à adoção com representatividade em todas as cinco regiões brasileiras e luta pela  garantia do direito à convivência familiar de toda criança e adolescente institucionalizado. E, atualmente, temos cerca de 40.000 crianças institucionalizadas à espera de uma família!  

E, o que é essa NOVA CULTURA DA ADOÇÃO?

A filiação adotiva deve ser considerada de igual valor que a biológica (até mesmo porque também os filhos biológicos devem ser adotados, cuidados e amados para serem verdadeiramente filhos); a adoção não deve ser um ato de caridade, mas sim um ato de amor, uma "via de mão dupla" onde pais e filhos são ganhadores; a verdade da origem do filho adotivo deve ser respeitada e conhecida (desde que possí­vel) e a adoção deixe de ser um segredo de família, algo que não se possa revelar (ora, somente as coisas feias ou inadequadas procuramos esconder), e especialmente, através da qual possamos corrigir a inércia do Poder Público que não tratou essas crianças, hoje adolescentes, como sujeito do direito  de ter uma famí­lia, e por isso lutamos todos os grupos pelas adoções necessárias,isto é, por adoções tardias, inter raciais, de grupos de irmãos, de deficientes e com ví­rus HIV.
Com esse trabalho, temos conseguido alterar o perfil do habilitado à adoção que, tradicionalmente, estava direcionado para bebês saudáveis, brancos e, preferencialmente, meninas. Atualmente, muitas crianças e adolescentes, antes fadados a viver eternamente em entidades de acolhimento institucional (antigo abrigo) por estarem fora do perfil comumente desejado, estão sendo adotadas e passaram a compor famílias que convivem felizes e em harmonia com as suas escolhas.

No entanto, a ANGAAD tem sido o receptivo de todas as angústias que famílias, pretendentes, profissionais e simpatizantes da adoção tem manifestado com relação às cenas da novela "Fina Estampa" que, em pleno horário nobre da TV, desde 28 de janeiro último, vem tratando do grande “segredo”  da personagem Teresa Cristina.
Seu grande segredo, revelado com estardalhaço e de forma fantasiosa,  refere-se ao fato de ser filha biológica de uma empregada que morreu louca em um sanatório psiquiatrico e ter sido adotada legalmente por uma família milionária.
A revelação de tal segredo parece justificar a personalidade de Tereza Cristina demonstrada ao longo da novela: uma pessoa psicótica, maquiavélica, má, péssima mãe, mesquinha, vingativa, e principalmente, uma homicida reincidente, que agiu para garantir a não revelação do terrível segredo !
A partir da revelação do segredo o descompasso aumenta ainda mais. Criam-se questionamentos sobre o real sobrenome de Tereza Cristina, se teria ou não direito à herança dos pais (adotantes) falecidos, se seu irmão (Paulo) deveria ou não fazer exame de DNA para “desmascará-la”. 
Essas são apenas algumas das situações  que fazem transbordar todo preconceito com relação a adoção como se fosse uma filiação de segunda classe.

Revelação e segredo – A adoção não pode ser tratada como segredo! Absurdo descobrir que a tia de Tereza Cristina, interpretada pela atriz Eva Vilma, vem chantageando a sobrinha em virtude de tal segredo. A origem biológica do filho adotivo é um componente de sua biografia, mas não será jamais o referencial maior de sua vida. O processo de criação e educação oferecidos pelos pais adotivos constituirão as suas matrizes psicológicos mais importantes.
Pessoas adotadas não são coitadinhas que foram acolhidas por um ato de piedade. São pessoas tão somente, que foram escolhidas como filhas pelo amor. A adoção é o processo de filiação fundamentado no afeto, sendo a única forma de se configurar a verdadeira paternidade e a maternidade. O fato de termos gerado crianças não nos torna pais e nem estas filhos. Todos os pais, inclusive os biológicos, precisam adotar afetivamente as suas crianças para que estas se tornem filhos.

Da origem genética – A vergonha de Tereza Cristina por ser filha de uma empregada doméstica é preconceituosa e absurda. A grande maioria das crianças e adolescentes disponibilizadas a adoção tem origem na pobreza, no abandono, na mendicância. Nenhuma dessas crianças e adolescentes deverá ter vergonha de sua origem. Tal colocação fere a dignidade da pessoa humana.

Dos questionamentos acerca do sobrenome de família – Tereza Cristina foi legalmente adotada. Seu sobrenome é da sua família adotiva, simplesmente da sua família. A inserção dessa dúvida está colocando em polvorosa inúmeras famílias formadas pela adoção que, no desespero, mesmo com toda a formação recebida, passam a povoar o imaginário com tal dúvida.  A Adoção é uma ato irrevogável que rompe todos os vinculos com a família biológica!

Da herança – Inquestionável que crianças e adolescentes legalmente adotados têm assegurados todos os direitos sucessórios. Totalmente descabida tal colocação ou sua menção por outros personagens do folhetim.

Dos componentes psiquiátricos e da falta de comprovação da transmissão hereditária – Muitas pesquisas científicas tem sido feitas neste sentido, entretanto, nenhum estudo em psiquiatria é categórico ao enfatizar uma influência exclusivamente genética, considerando sempre os fatores ambientais no desencadeamento ou manutenção dos transtornos. Em relação a esquizofrenia especificamente, até o momento, os estudos são também inconclusivos ao colocá-la como genética ou hereditária, embora tenhamos certeza de que a probabilidade de filhos esquizofrênicos é maior se um dos pais for esquizofrênico e muito maior se ambos o forem. Sempre se fala em "probabilidade" ressaltando-se a influência ambiental na maioria dos estudos.
Uma enormidade de crianças e adolescentes adotados são filhos biológicos de alcoolistas, usuários das mais diversas drogas, dentre elas o crack, pacientes psiquiátricos, portadores do vírus HIV, dentre outros. Assim, a abordagem escolhida para a personagem Tereza Cristina faz um enorme desserviço à causa da adoção, afastando o adotante do real interesse do instituto da adoção que é a criança.
E como se tivessem sido reabertos baús que acreditávamos esquecidos e os fantasmas dos preconceitos passassem a rondar novamente o imaginário social...
A maioria da poupulação não tem conhecimento cabal dos procedimentos legais da Adoção, da sua irrevogabilidade, dos direitos e deveres que dele decorrem e dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem uma verdadeira atitude adotiva.
Entendemos a liberdade de expressão e jamais nos colocaríamos na posição da malfadada censura, contudo, os últimos capítulos só têm reforçado todo preconceito com relação à Adoção.
Outrossim, numa ponderação hierárquica dos princípios constitucionais , se sobrepõe à liberdade de expressão a dignidade da pessoa humana que, por força do disposto no Art. 227 parágrafo 6º da Constituição Federal, não pode sofrer qualquer designação discriminatória relativa a sua filiação
Assim, por todas as razões já colocadas e prejuízos e constrangimentos para inúmeros pais e filhos adotivos brasileiros, vimos solicitar não somente uma reinterpretação da questão envolvendo o tema da adoção da personagem Tereza Cristina, mas principalmente o esclarecimento dentro do ambito da novela do real siguinificado da CULTURA DA ADOÇÃO.
Desde já agradecemos pela atenção dispensada e aguardamos ansiosos pelas providencias a serem adotadas para reparar a dor causada às famílias adotivas e o prejuízo a toda luta de tentar encontrar uma família para as 40.000 crianças abrigadas.
Atenciosamente,
Barbara Toledo
Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção ANGAAD