Espiritismo e Adoção


O espírita é naturalmente vocacionado para a filiação adotiva. Não é à toa. Tal vocação faz parte do tornar-se espírita porque o espiritismo, ampliando o conceito tradicional de família, situa os laços parentais nos vínculos afetivo-espirituais ao invés dos laços sanguíneos. 

Explica-nos Allan Kardec, em O Evangelho segundo o espiritismo, no cap. XIV item 8, que "não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela purificação e se perpetuam no mundo dos Espíritos, através das várias migrações da alma, as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual". Assim, para o espírita, a parentalidade corporal é uma contingência relacionada com as necessidades da atual reencarnação. Nas sucessivas existências terrenas, os espíritos alternam-se nos diversos papéis sócio-familiares em busca de aprendizagem, da reparação de equívocos do passado, enfim, de novas oportunidades para caminhar na direção da iluminação, que só pode ocorrer através do amor. 

A concepção de família à luz do espiritismo, portanto, é exatamente a da família adotiva. Segundo esta ideia, familiares só podem constituir-se como tais através da adoção, ou seja, pelos vínculos do amor. A orfandade passa a ser entendida como uma experiência afetiva e não biológica. Melhor dizendo, a orfandade ocorre na ausência do afeto, e não na ausência de antepassados. O mundo está repleto de órfãos de "pais" vivos. Em todo canto observam-se genitores que, pela consanguinidade, estabeleceram tão somente herdeiros genéticos, deixando de construir, através da adoção, filhos. São genitores que não se constituíram pais porque, como afirma o psicólogo Luiz Schettini, "a filiação é uma experiência ética, não genética". O processo de filiação precisa do ethos, o espaço relacional humano, e não do gene, a herança corporal. Se o laço genético garantisse a paternidade/maternidade os consultórios dos psicólogos estariam bem menos cheios. 

Infelizmente, nem sempre temos ouvido do alto das respeitáveis tribunas espíritas este entendimento acerca da verdadeira filiação. Muitos honrados companheiros de ideal mantêm-se ainda fixados no conceito material de família, embora a doutrina dos espíritos seja muito clara neste aspecto, como nos informa O Livro dos espíritos, pergunta 207: " O corpo deriva do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito. Entre os descendentes das raças apenas há consanguinidade". 

Benditos sejam os ventres através do quais mergulhamos na experiência terrestre! Todavia, a gestação é apenas um ponto de partida relacional, um ponto de partida não imprescindível, e não suficiente. O tornar-se pai/mãe só pode ocorrer numa experiência de profunda amorosidade que partilhamos com o outro. Pais e mães, tendo ou não gerado os corpos de que se utilizam seus filhos nesta encarnação, precisam adotá-los (e serem por eles adotados), ou não passarão de seus provedores genéticos ou tutores legais.

Compreender que gestação e filiação são fenômenos diferentes e independentes retira nossa atenção dos formalismos biológico-legais, concentrando-a nas relações afetivas. Só assim poderemos também compreender que a reencarnação é a sublime oportunidade de, pela abençoada via da adoção, (re) construirmos nossos verdadeiros laços familiares: os que surgem cotidianamente no amor.

 Guilherme Lima Moura é trabalhador do Lar Espírita Chico Xavier

Projeto Mãe Legal


“É a coisa mais linda”, diz a pernambucana Maria, moradora da periferia do Recife, que pediu para ter o nome trocado, sobre o filho recém-nascido. Quem a vê hoje se derreter pelo menino que acabara de completar um mês de vida não consegue imaginar que ela havia pensado em entregá-lo para a adoção. Maria, 36 anos e dois filhos adolescentes, achou que uma nova maternidade seria um fardo pesado demais para carregar. Mas mudou de ideia após ser assistida pelo Programa Mãe Legal, desenvolvido pela 2ª Vara da Infância e Juventude de Pernambuco – vinculada ao Tribunal de Justiça daquele estado (TJPE).
A iniciativa destina-se justamente ao atendimento de mulheres que, por alguma razão, optam por não ficar com seus filhos. Ao mesmo tempo, o projeto visa a promover, de forma adequada e nos moldes da lei, a reinserção da criança na mesma família ou – em último caso – em família substituta, dando assim, um novo recorte ao trabalho que é estimulado pelo Conselho Nacional de Justiça ao programa de adoção - já que, de certa forma, o objetivo é fazer com que cada criança encontre segurança e apoio psicológico em um lar. 

Estado de perturbação 

“Passei por momentos turbulentos, me senti muito confusa e decidi não ficar com ele”, explica Maria sobre a razão que a fez optar por entregar o filho para a adoção. Ela estava desempregada e não se entendia com o pai da criança. “Eu não tinha dinheiro sequer para uma fralda. Isso me deixou perturbada”, completa.  Mesmo assim, ela conta que nunca pensou em abortar. Prosseguiu com o pré-natal e, no hospital onde recebia assistência médica, informou aos médicos sua decisão. Lá, recebeu um folder do Programa Mãe Legal. 

A pernambucana procurou a 2ª Vara já no oitavo mês de gestação. E lá, para sua surpresa, além  da orientação que é dada para as mães encaminharem os filhos de forma correta para os pretendentes registrados no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), que é coordenado pelo CNJ, também recebeu atendimento social e psicológico que a fizeram refletir melhor e resolver pela opção que viesse a considerar a mais correta para o seu caso e sua realidade. “Fui muito bem atendida. Em nenhum momento me senti pressionada. Tanto que recebi a orientação de que, até a decisão do juiz, eu poderia voltar atrás quanto à adoção”, enfatizou. 

E Maria voltou atrás. “Estou com a criança, é um menino. Tem apenas um mês e só faz mamar. Chega a estar gordinho. É realmente a coisa mais linda”, derrete-se.  Para Nicolau Lupianhes, juiz auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça, órgão do CNJ, os projetos de assistência às gestantes são importantes, por isso contam com o apoio do Conselho. “Muitas mães abandonam seus filhos em razão de fragilidades psicológicas, perda material ou desamparo familiar. Nesse momento, pensam que o melhor é abandonar o filho. Trabalhos de assistência e apoio como este trazem as orientações necessárias para as mães que estão momentaneamente desesperadas”, afirma.


Giselle Souza

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