Panfletagem

Dia 22 de maio

Dialogando sobre Adoção

Reunião do dia 21 de maio de 2010

Meu Anjo Querido!

Você sofreu tanto em tão pouco tempo de vida. Nasceu em família desestruturada, foi abusada e abandonada. Tiraram você de lá e lhe colocaram numa instituição, para sua proteção. Habilitaram uma pessoa respeitável para ter você em sua companhia, receber carinhosamente você e fazer passar para sempre os momentos de medo, abandono esofrimento. Mas essa nova pessoa também agrediu você, de forma inexplicavelmente cruel, numa perpetuação injusta do seu infortúnio.

Vi sua foto no jornal, com os olhos marcados pela insanidade. Achei indigno que ela fosse publicada, mas no circo que se criou a partir do seu caso, tudo passa a ser validado, embora a ética obrigasse que todos nós preservássemos sua identidade e imagem. Há quem não pense assim e julgue que a exposição de tudo é democrático. Mas ao ver seus olhinhos pude notar lá bem no fundo que resta uma esperança de felicidade, o afeto que você guarda, esperando a oportunidade de um real encontro de amor.

Esse é o tema da minha conversa com você: seu rumoroso caso fez com que muita gente opinasse, participasse e aparecesse. As pessoas querem justiça, de forma geral. Algumas chegam a quererv ingança. Quase todos se concentram na maldade e na pessoa que te agrediu por último, já que das agressões que você sofreu na família de origem nada foi falado e não se sabe se houve qualquer punição. Mas, independentemente disso, toda a mídia se preocupa com a punição, algumas pessoas revoltadas vão para frente da delegacia para ofender a agressora, os jornais estampam em sua primeira página notícias sobre cada novo processo instaurado e por aí vai.

Eu me pergunto, meu anjo, o que você precisa agora. Enquanto se clama por justiça não se pode perder de vista que justiça verdadeira será te garantir o quanto antes uma possibilidade de felicidade. Você está numa instituição e nós dois sabemos que isso não é o ideal. Lá você não receberá todos os abraços, os pequenos carinhos, o mar de beijinhos, e os olhares de admiração que merece. Você precisa de alguémd isposto a te abraçar profundamente quando acordar assustada com um pesadelo, alguém que te carregue para a cama dele e te faça voltar a calma falando coisas bonitas e fazendo cafuné nos seus cabelos.

Sei que está pessoa, ou estas pessoas existem. Estão esperando o momento deste encontro amoroso com alguma ansiedade. Vão te cobrir com toda a dedicação do mundo e te fazer ver que os seres humanos podem ser grandes existências quando têm afeto para dar. Não me preocupo se eles sentirão pena de você por sua história. Na verdade isso pode acontecer, um pouquinho, por que você sofreu muito. Mas eles terão algo muito maior que pena. Terão amor. E com amor a liberdade de te criar de forma carinhosa, corrigindo os rumos que se façam necessários, orientando,aconselhando, chamando atenção quando necessário, sem nunca, nunca, perder o respeito por você. Tenho a esperança que eles cheguem em breve. Você vai finalmente vai encontrá-los e poder viver uma dimensão mais sublime de existência, digna. Posso agora ouvir sua voz. E você vai chamá-los pelos títulos mais importantes da história da humanidade: papai e mamãe.
  
Matéria que foi publicada no O Estado, de Fortaleza: Sávio Bitencourt.